19.10.2006  
     
 
Entre a Prestes Maia e a Daslu
 
  Em 1974, Edmar Bacha cunhou a expressão Belíndia para definir a distribuição da renda no Brasil à época, insinuando que o país era uma mistura entre a pequena e rica Bélgica e a miséria da Índia.

Basta visitar dois endereços em São Paulo para perceber que essa expressão, infelizmente, não foi mero fruto da fantasia de um economista nem perdeu sua atualidade. Na avenida Prestes Maia, número 911, bem próximo ao coração financeiro do Brasil, 468 famílias de sem teto lutam há quatro anos para não serem despejadas. A poucos quilômetros dali, na Vila Olímpica, encontra-se a Daslu, uma loja que oferece artigos que 99,99% dos brasileiros não podem comprar.


Visitei os dois lugares hoje. Não pode existir maior contraste no mundo. A situação nos 24 andares do edifício na Prestes Maia 911, uma ex-fábrica de têxteis, é de um sofrimento indescritível. Os próprios moradores dizem que vivem em condições subumanas. Até 60 pessoas são obrigadas a partilhar um banheiro coletivo por andar.

Já a Daslu é de um outro mundo. O visitante, quando vestido a caráter (o que não foi meu caso), é recebido como um marajá que volta para casa: cortejos de porteiros em branco o acompanham até o interior do templo do luxo, onde ele é rodeado por enxames de belas vendedoras e garçonetes extremamente gentis.

Não tive a mesma sorte, provavelmente por estar trajando roupa muito simples e levar uma pequena mochila nas costas. Mesmo assim, me deixaram entrar, depois de o taxista ter me apresentado como alemão (não vi ninguém passar a pé pelo portão). Depois de fazer a terceira foto, fui gentilmente intimado por um homem de terno e gravata, acompanhado por dois seguranças, a não mais filmar ou fotografar.

Só aí percebi que cada um de meus passos estava sendo vigiado. O que mostra o medo que esta minoria tem de um contato com a maioria, formada por simples mortais, como eu, você, a "dona" Jomarina, a Roberta e o Severino da grande avenia Prestes Maia, que vai do Oiapoque ao Chuí.

E como são mínimas as chances de que este contato ocorra justamente na Daslu, resta ao pobre coitado, que conseguir entrar lá, a rara chance de usar um dos banheiros da loja, onde até o prendedor do rolo de papel higiênico é revestido de ouro.
 
 
 
Geraldo 19.10.2006, 23:59 # 3 Comments
 
 
     
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