02.11.2006  
     
 
Dois mundos
 
  Comecei a viagem com atraso do trem alemão, terminei-a com atraso do vôo brasileiro que me levaria de volta à Colônia. Deu tempo para ler todos os cartazes no aeroporto do Galeão, um deles contra o tráfico de seres humanos. A companhia aérea foi gentil, concedendo-me um upgrade para minha primeira viagem na classe executiva. É outro mundo, se comparado com a classe econômica da ida.

Maior ainda é a diferença entre ricos e pobres brasileiros, estampada numa foto da revista Stern, leitura de bordo.
O fotógrafo Tuca Vieira captou o abismo que separa os moradores da favela Paraisópolis e os donos de apartamentos de luxo na zona sul de São Paulo. É a síntese de um Brasil que parece não querer mudar. Era assim há 14 anos, quando decidi tentar a vida na Alemanha. Continua do mesmo jeito hoje.



No meu vôo, muitos turistas voltaram para a Alemanha. Entre eles, um grupo de oito surdo-mudos de Colônia. Não consegui me comunicar com eles. No aeroporto Colônia/Bonn, o filho de um deles me contou que eles fizeram um giro de 14 dias pelo Brasil. Adoraram.



Creio que realmente é possível adorar o Brasil como destino de férias. Tem praias o ano todo, comida excelente, uma hospitalidade incrível. Para morar, tenho lá minhas dúvidas. "Corrupção" e "criminalidade" foram as duas palavras que mais ouvi nessa viagem. Mas, talvez, eu esteja ficando alemão demais.

Certa vez, me perguntaram por que eu havia feito a loucura de trocar o sol e as belas praias do Brasil pelo frio da Alemanha. Respondi que não consigo me imaginar vivendo só de sol e praia. Talvez, por falta de fantasia. Não invejo, porém, um ou outro frequentador das areias de Copacabana, em cujas proximidades estive hospedado nos últimos dois dias.



Quando saí de lá fazia uns 30 °C; desembarquei em Colônia com 10 °C. E hoje começou a nevar em casa na Baviera.

O maior choque que um brasileiro sofre quando chega à Alemanha, mesmo no inverno europeu, não é o de temperatura. É o choque de segurança. Faz tempo que eu não me sentia mais tão inseguro quanto nas duas últimas semanas no Brasil.



Talvez, isso seja apenas a consequência de um trauma insuperado. Antes de vir para a Alemanha, em 1992, a casa em que eu morava na favela do Morro da Penitenciária, em Florianópolis, foi assaltada duas vezes seguidas. Depois disso, tive pesadelos em que eu era esfaqueado por assaltantes. Imagino que não são poucas as pessoas no Brasil que sofrem pesadelos semelhantes. A diferença é que muitos conseguem se acostumar a isso.
 
 
 
Geraldo 02.11.2006, 16:07 # 3 Comments
 
 
     
3 Comments

  Olá Geraldo,

Já viu cartazes na Alemanha com crianças brasileiras trabalhando no corte da cana de açúcar?

Um amigo de Berlim viu e comentou comigo, disse-me que é patrocinado pelos produtores de açúcar de beterraba...

Voce recebeu um e-mail que lhe enviei, caixa da DW?

Paulo Verri Filho
 
  paulo verri filho | E-Mail | 06.02.2007, 11:59  
 
 
  Oi geraldo, você não me conhece, mas eu já ouvi falar muito de você. Fizemos a mesma escola!!! Também me formei em jornalismo na UFSC e todos os professores falavam de você, sempre foi minha referência do brasileiro que estava trabalhando com jornalismo na Alemanha. Acompanhei todo os teus textos,amei...conhecendo as refências eu quase sempre me via balançando a cabeça em frente ao computador e concordando contigo. Principalmente nesse último texto. Realmente perdemos o direito de ir e vir...infelizmente, e perdemos faz tempo e a sensação é que tudo isso é irreversível...Eu agora vou fazer o mesmo caminho que tu fizeste, estou indo pra Bonn fazer um estágio na Deutshe Welle. Durante dois meses quero poder andar pra todos os lados sem sentir medo, como acontece aqui...
abraço
cleide klock
 
  Cleide Klock | E-Mail | 11.12.2006, 20:05  
 
 
  Geraldo,
obrigada pelo passeio virtual que pude fazer com você no Brasil e ler tantas coisas interessantes.
Bem-vindo!
 
  Rosi | 04.11.2006, 16:42  
 
 
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