25.09.2009  
     
 
A escola da vida
 
  Parece lógico, isso de que a escola nos prepara para a vida, de que a educação é a chave para superar o círculo vicioso da pobreza e a falta de perspectivas. Porém, a verdade é que só a escola não consegue solucionar esses problemas. Isso, os membros da tribo enklet, no Chaco, conhecem na própria carne.

Na reserva onde vivem, em Filadelfia, a capital do Chaco, moram 560 famílias, um total de 1.850 pessoas, entre elas 600 crianças em idade escolar.
Há uma escola, onde ensinam dois professores. De manhã, os alunos da primeira e segunda série, de tarde os maiores.
Se uma criança não aparece na escola, um representante do conselho da comunidade vai até a casa da família para ver se tem alguém doente ou se há algum outro problema a resolver.
As habitações são 80% choças pequenas sobre a terra seca.



Nas aulas as crianças aprendem coisas práticas, pelo menos foi assim, na manhã em que chegamos na escola com câmeras e microfones. O professor nem se altera e continua explicando a diferença entre os animais com penas, com escamas e com pelos, e como estes se deslocam sobre o nosso planeta, pela água e pelos ares.



Hoje, no entanto, os alunos não devem ter aprendido muito.
Mais interessante do que os peixes, pássaros e cães, e suas respectivas formas de deslocamento, foram as laranjas que lhes demos de presente ao terminar a aula – nós as tínhamos comprado em Assunção, antes de ir para o Chaco.
Depois de esperar quietos e quase imóveis, sentados ao pé de uma árvore gigantesca, de onde observavam como filmávamos e fazíamos nossas entrevistas, receberam as frutas cítricas em silêncio, mas com um sorriso feliz. Não falam castelhano, porém souberam expressar sua alegria sem palavras.



O que aprendem na escola, em muitos casos não lhes serve tanto. As possibilidades de aprender um ofício são raras, há pouco trabalho, apenas os brancos recebem bolsas para estudar na universidade, nos dizem. Alguns deles trabalham nas fazendas menonitas, uns como boiadeiros, outros como contadores. Entretanto, desde que começou a grande seca, há alguns meses, as fazendas reduziram os rebanhos para economizar água. Sem trabalho, nem água, os enklet dependem agora da ajuda enviada pelo governo. Recebem arroz e feijão – mas laranjas, ninguém tinha nunca enviado de Assunção.
 
 
 
Mirjam Gehrke 25.09.2009, 19:37 # 0 comentários
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