27.11.2009  
     
 
"Memórias subalternas e saberes selvagens"
 
  De São Paulo sigo para Minas Gerais. Associo o bicentenário da independência aos movimentos que supostamente levaram ao desvinculamento da colônia (Brasil) da metrópole (Portugal). Nas escolas aprendemos e no feriado nacional do 21 de abril somos sempre lembrados de que ali, em Minas, os inconfidentes plantaram a semente de uma "liberdade, mesmo que tardia". Em Belo Horizonte converso com o pesquisador Reinaldo Marques, que me faz lembrar as "memórias de grupos subalternos" omitidas na história do país e "os saberes descartados como selvagens e excluídos como não-saberes" na constituição da identidade nacional.Pego um ônibus para São João del Rei e para Tiradentes, a cidade que leva o nome do herói nacional inconfidente. À minha frente, no ônibus, observo os cabelos lisos e quase loiros de uma jovem negra. Penso que nossa consciência e autoestima como nação talvez esteja diretamente relacionada ao mercado de alisantes e descolorantes, que nos fazem ansiar por algo que não somos e nem teria por que querermos ser.




Em São João del Rei encontro o pesquisador Afonso de Alencastro e ouço suas explanações sobre nossa independência que resultou na perpetuação da monarquia e sobre uma Inconfidência Mineira que não passou de um simples "golpe de elites". Ao lembrar os ex-escravos e primeiros homens livros daquele momento, ele me conta a história do Comendador Mourão, sapateiro que enriquece, constrói uma das maiores casas da cidade e é "denunciado" por sua condição de "pardo", que procura omitir até seus últimos dias. Me lembro da jovem do ônibus com seus cabelos lisos e loiros.




O encontro com a pesquisadora Leônia Chaves de Resende gira em torno da memória indígena esquecida pelos cânones. É nas bordas dos documentos oficiais e nos relatos de viajantes estrangeiros – que passaram a entrar no Brasil a partir de 1808, com a abertura dos portos por Dom João 6° – que estão suas fontes de pesquisa. Os viajantes estrangeiros me fazem lembrar de "Quäck", índio "botocudo" levado pelo Príncipe Maximilian zu Wied para a Alemanha, onde viria a morrer alcoolizado e de frio após pular a janela do castelo. Penso na carga simbólica desse destino trágico: o transporte, o estranhamento, a solidão, o álcool, a queda, o frio e a morte.




No caminho de volta, cruzo o Rio das Mortes. O motorista de táxi que me acompanha conta que o nome remete à Guerra dos Emboabas, cujas batalhas teriam sido travadas em suas margens. Pouco antes, ouvi que as águas daquele rio, carregadas de minérios, são "vermelhas por causa do sangue que ali correu". Penso na imagem do Brasil como país pacífico, que nunca se envolveu em guerras externas, mas cuja história interna foi (e ainda continua sendo) mais que sangrenta. Para superar as cicatrizes de nossas hemorragias internas ainda vamos certamente precisar de um bom tempo.
 
 
 
Soraia Vilela 27.11.2009, 21:42 # 2 comentários
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